Iron Maiden revisita suas origens e reafirma sua força nos palcos de São Paulo
Com Alter Bridge na abertura, Donzela de Ferro celebra cinco décadas de carreira no Nubank Parque; Bruce Dickinson esbanja presença de palco, enquanto Janick Gers protagoniza um espetáculo à parte com sua guitarra
Crédito fotos: Stephan Solon / Divulgação Move Concerts
O Iron Maiden voltou a São Paulo no domingo, 25 de outubro, para uma noite que reuniu celebração, nostalgia e grandes momentos do heavy metal. Diante de um Nubank Parque lotado, a banda britânica apresentou a turnê Run for Your Lives, comemorativa de seus 50 anos de história, com um repertório dedicado aos primeiros álbuns e uma produção visual que ampliou a dimensão de clássicos que atravessaram gerações.
A apresentação aconteceu em uma noite atípica: enquanto milhares de fãs aguardavam os próximos riffs, a apuração do segundo turno das eleições presidenciais movimentava as telas dos celulares e alimentava a tensão entre parte do público. A confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva ocorreu durante o show, criando um contraste entre a expectativa política e a celebração musical. Apesar do clima carregado em alguns momentos, a música manteve o protagonismo de uma noite que entraria para a memória dos presentes.
Antes da Donzela de Ferro, o Alter Bridge teve a missão de preparar o terreno. E, embora tecnicamente consistente, encontrou uma plateia que ainda parecia reservar sua energia para a atração principal.
Alter Bridge: precisão técnica e crescimento gradual
O quarteto norte-americano entrou no palco por volta das 19h10, com Myles Kennedy nos vocais e guitarra, Mark Tremonti na guitarra, Brian Marshall no baixo e Scott Phillips na bateria. Formada também por três músicos que integraram o Creed, a banda apresentou oito músicas em um set concentrado, sem grandes pausas ou excessos de interação.
“Silent Divide” abriu a apresentação com um riff pesado, cadenciado e de atmosfera sombria. A música evidenciou a precisão instrumental do grupo, embora a resposta da plateia ainda fosse discreta. Em seguida, “Addicted to Pain” aumentou a intensidade, combinando riffs incisivos, melodias marcantes e um refrão mais direto.
Em “Cry of Achilles”, o Alter Bridge explorou mudanças de andamento e passagens mais elaboradas. Antes da execução, Kennedy arriscou algumas palavras em português e contou que havia passado o dia preocupado em não errar justamente na abertura para o Iron Maiden. A declaração arrancou simpatia, mas a interação com o público permaneceu contida.
A progressiva “Fortress” trouxe uma construção mais longa, com variações instrumentais que demonstraram a capacidade técnica da banda. Já “Silver Tongue” destacou o peso das guitarras e a força dos riffs, preparando o terreno para a reta final.
Foi com “Metalingus” que o grupo encontrou um dos momentos mais eficientes do set. Conhecida também por sua associação ao universo da WWE, a faixa trouxe uma combinação certeira de peso, melodia e refrão, mostrando o potencial do Alter Bridge para grandes arenas.
Na sequência, “Blackbird” apresentou o lado mais emotivo da banda. Os celulares acesos iluminaram parte do estádio enquanto Kennedy e Tremonti dividiram os holofotes com solos fortes e precisos. Para encerrar, a clássica “Isolation” apostou em um refrão marcante, reforçado pelos vocais de apoio de Tremonti.
O saldo foi positivo: apesar de curta, foi uma apresentação tecnicamente sólida, com músicos experientes e repertório consistente. Faltou, porém, uma resposta mais intensa de uma plateia que, desde o início, deixava evidente qual era sua principal expectativa para aquela noite.
Setlist — Alter Bridge
- Silent Divide
- Addicted to Pain
- Cry of Achilles
- Fortress
- Silver Tongue
- Metalingus
- Blackbird
- Isolation
Iron Maiden: dos primeiros anos aos épicos monumentais
Por volta das 20h50, a introdução de “The Ides of March”, acompanhada por imagens que remetiam aos primeiros anos da banda, preparou a entrada do Iron Maiden. A abertura com quatro músicas da fase de Paul Di’Anno foi uma escolha certeira para uma turnê que celebra as origens e a trajetória do grupo.
“Murders in the Rue Morgue” iniciou o repertório com sua urgência característica, quase um punk rock, seguida por “Wrathchild”, que manteve a conexão com a fase mais crua da banda. Em “Killers”, a aparição do mascote Eddie acrescentou o primeiro grande elemento teatral da noite. As três faixas, entretanto, apresentaram um andamento mais contido do que o esperado, reduzindo parte da velocidade e da agressividade das gravações originais.
A mudança de intensidade começou a aparecer em “Phantom of the Opera”. Com suas transições, passagens instrumentais e estrutura progressiva, a música permitiu que o conjunto encontrasse maior fluidez. Foi também o momento em que Bruce Dickinson pareceu mais aquecido vocalmente, consolidando uma atuação que cresceria ao longo da apresentação.
Em “The Number of the Beast”, a resposta foi imediata. A combinação entre o riff inconfundível, os vocais poderosos de Dickinson e a pirotecnia transformou o estádio em um espetáculo de som e imagem. A faixa também coincidiu com a confirmação da reeleição de Lula, um marco particular para quem acompanhava a apuração durante o show. O contraste entre a notícia política e um dos maiores clássicos do heavy metal tornou aquele momento ainda mais singular.
A performance de Dickinson merece destaque. Aos 68 anos, o vocalista demonstrou fôlego, potência e domínio de palco, sustentando notas, conduzindo os refrões e alternando interpretações agressivas e teatrais. Sua presença não depende apenas da voz: cada movimento, expressão e interação ajuda a transformar o repertório em uma narrativa.
Antes de “Infinite Dreams”, o cantor falou sobre a importância de sonhar e sobre o Brasil, introduzindo uma das escolhas mais especiais do set. Recuperada após décadas fora dos repertórios regulares, a faixa trouxe uma atmosfera progressiva e contemplativa, reforçando o caráter comemorativo da turnê.
Em “Powerslave”, uma das minhas favoritas, a produção visual atingiu outro patamar. Dickinson surgiu com uma máscara, enquanto o telão apresentava Eddie em sua versão faraônica, cercado por imagens que ampliavam o clima egípcio da composição. O novo painel digital de grandes dimensões, utilizado no lugar dos tradicionais cenários pintados, mostrou-se um dos grandes acertos da turnê.
Na sequência, “2 Minutes to Midnight” trouxe uma abordagem pesada e direta, preparando o público para um dos momentos mais elaborados da noite. Antes de “Rime of the Ancient Mariner”, Dickinson anunciou “a hora da cachaça”, apenas para descobrir, em tom de brincadeira, que o cantil continha água. A piada abriu caminho para a longa composição inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge, que foi um importante poeta, crítico literário, filósofo e teólogo inglês, reconhecido como um dos fundadores do Movimento Romântico na Inglaterra.
Durante a faixa, o telão funcionou quase como uma tela de cinema, sincronizando imagens e efeitos com a narrativa musical. As passagens instrumentais ganharam dimensão, transformando o estádio em um ambiente de tensão e grandiosidade. Foi um dos exemplos mais claros de como a produção visual pode complementar a música sem tirar seu protagonismo. A melhor produção de um show que vejo em anos!
“Run to the Hills” devolveu a urgência ao espetáculo, com o público cantando e a pista reagindo com rodas e movimentação intensa. Já “Seventh Son of a Seventh Son” retomou a atmosfera épica, destacando as mudanças de dinâmica e a capacidade de Dickinson de sustentar interpretações exigentes.
Se Bruce Dickinson comandou o espetáculo com sua força vocal, Janick Gers foi responsável por alguns dos momentos visualmente mais imprevisíveis do palco. O guitarrista não se limitou a executar suas partes: correu de um lado para o outro, pulou, fez caras e bocas, girou a guitarra e a lançou para cima, transformando cada aparição em uma performance particular. Para mim o segundo destaque da noite, o primeiro foi o tio Bruce.
Seu estilo expansivo contrasta com a postura mais concentrada de Dave Murray e Adrian Smith, mas essa diferença é parte da dinâmica que mantém o trio de guitarras do Iron Maiden tão característico. Gers imprime movimento e espontaneidade à apresentação, criando cenas que chamam a atenção mesmo em meio a uma produção grandiosa. É um show à parte dentro do próprio show.
No hit “The Trooper”, Eddie reapareceu caracterizado como soldado, enquanto Dickinson empunhava bandeiras do Brasil e do Reino Unido. A combinação de encenação, riffs e solos reforçou a identidade teatral da banda.
“Hallowed Be Thy Name” trouxe outro grande momento dramático. Dickinson incorporou a narrativa da música com movimentos e encenação dentro de uma cela, reforçando a atmosfera de uma das composições mais emblemáticas do grupo.
Já “Iron Maiden”, que encerrou o repertório principal, voltou a evidenciar a redução de velocidade percebida em algumas músicas da fase de Paul Di’Anno. A execução permaneceu firme, mas perdeu parte da urgência que caracteriza a gravação original.
Após uma breve pausa, o discurso de Winston Churchill anunciou “Aces High”, a favorita desse que vos fala. Com Dickinson caracterizado como piloto de caça, o retorno trouxe um dos momentos mais visuais do espetáculo, embora o andamento mais contido tenha reduzido parte do impacto esperado de uma música tão veloz. Quase um speed metal, que música!
Em seguida, “Fear of the Dark” provocou a maior resposta coletiva da noite. Milhares de vozes acompanharam o tema principal, transformando o estádio em um coro gigantesco. Dickinson conduziu a plateia com segurança e teatralidade, reafirmando sua capacidade de transformar uma canção conhecida em uma experiência compartilhada.
“Wasted Years” encerrou o repertório com melodias irresistíveis e um refrão que atravessa gerações. Nos alto-falantes, “Always Look on the Bright Side of Life”, do Monty Python, acrescentou uma despedida bem-humorada após o fim da apresentação.
A bateria de Simon Dawson, que assumiu o posto após a aposentadoria de Nicko McBrain das apresentações ao vivo, foi um dos pontos de transformação desta fase. Sua abordagem mais econômica contribuiu para a sensação de andamento reduzido em algumas composições, especialmente nas faixas que dependem de velocidade e viradas mais elaboradas. Ainda assim, o trio de guitarras e o baixo pulsante de Steve Harris sustentaram a identidade instrumental do Maiden.
O Iron Maiden entregou em São Paulo um espetáculo de contrastes. De um lado, a força de um repertório histórico, a produção visual renovada, a presença monumental de Bruce Dickinson e a energia irreverente de Janick Gers. De outro, algumas oscilações de andamento que diminuíram a urgência de músicas concebidas para soar rápidas e agressivas.
A apuração eleitoral acrescentou uma camada particular à experiência, sem transformar o show em um evento político: a noite reuniu milhares de pessoas que acompanhavam, ao mesmo tempo, o desenrolar de uma disputa nacional e a celebração de uma das maiores bandas da história do metal.
Cinco décadas depois de sua formação, o Maiden continua capaz de preencher estádios, mobilizar gerações e transformar canções em acontecimentos coletivos. A longevidade traz adaptações e desafios, mas a força desse repertório permanece evidente. Entre os épicos, os clássicos e a teatralidade de seus integrantes, a Donzela de Ferro mostrou que ainda tem muito a oferecer.
Up the Irons!
Setlist — Iron Maiden
- The Ides of March (introdução)
- Murders in the Rue Morgue
- Wrathchild
- Killers
- Phantom of the Opera
- The Number of the Beast
- Infinite Dreams
- Powerslave
- 2 Minutes to Midnight
- Rime of the Ancient Mariner
- Run to the Hills
- Seventh Son of a Seventh Son
- The Trooper
- Hallowed Be Thy Name
- Iron Maiden
Bis:
16. Aces High
17. Fear of the Dark
18. Wasted Years



