Guns N’ Roses entrega show épico em São Paulo e reafirma seu legado no rock
Na noite do último sábado (25), o Guns N’ Roses transformou o Allianz Parque, em São Paulo, em um templo do rock. A apresentação integrou a turnê “Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things”, traduzida livremente como “Porque o que você quer e o que você obtém são duas coisas completamente diferentes”.
Esta foi a segunda apresentação de cinco confirmadas no Brasil. A banda californiana, que não vinha ao país desde 2022, tem como convidado de abertura o grupo brasileiro Raimundos, responsável por aquecer o público.
Antes mesmo das luzes se apagarem, milhares de fãs já ocupavam o estádio. Muitos passaram horas nas filas sob o sol, alguns acamparam para garantir um lugar próximo à grade. Gerações diferentes se misturavam, todos movidos pela mesma expectativa de assistir a um dos maiores nomes do rock em atividade.
Ignorando o tempo dos lendários atrasos de Axl Rose, às 20h em ponto, a banda deu início à maratona com “Welcome to the Jungle”. A partir daí, o público mergulhou em uma sequência de três horas e quinze minutos, em um repertório que combinou clássicos e surpresas, confirmando o que se dizia à saída: “o Guns N’ Roses fez um show épico”.
Axl Rose surgiu com energia impressionante, correndo pelo palco como se estivesse nos anos 90, dançando, sorrindo e interagindo sem perder o fôlego e deixando claro por que, a cada show, reafirma seu lugar entre os maiores frontmen da história da música, um artista de 63 anos que, apesar dos excessos do passado, entrega uma performance que faz lembrar vocais esganiçados, potentes e agudos, com a sabedoria de quem aprendeu a dosar a voz e de quem enfrenta o passar do tempo com técnica, sem o vigor de mais de três décadas atrás, mas sem decepcionar em momento algum.
Slash, por sua vez, ofereceu o espetáculo dentro do espetáculo, hipnotizando a plateia com uma presença de palco que transforma cada solo em aula de construção melódica e de controle de dinâmica, enquanto Duff McKagan mostrou segurança ao dividir o protagonismo e ainda assumiu os vocais em uma versão vibrante de Thunder and Lightning, do Thin Lizzy.

Crédito: Guns N’ Roses
A performance do Guns N’ Roses foi marcada por equilíbrio e entrosamento. Richard Fortus manteve o peso das guitarras com precisão e personalidade, enquanto Dizzy Reed, integrante desde 1990, teve seu momento clássico em Estranged, recebendo aplausos calorosos. Melissa Reese e Isaac Carpenter também se destacaram; ela, com vocais de apoio, especialmente nos trechos mais exigentes; ele, recém-chegado à banda em março de 2025, vem conquistando os fãs com seu estilo e trazendo a sintonia que parecia faltar à formação atual. O resultado foi um show coeso, em que cada integrante teve espaço para brilhar sem perder o foco e a essência coletiva da banda.
O repertório passeou por todas as fases da carreira. Depois de “Welcome to the Jungle”, vieram “Bad Obsession” (Use Your Illusion I, 1991), “Chinese Democracy” (2008), “Pretty Tied Up” (Use Your Illusion II, 1991), “Mr. Brownstone” e “It’s So Easy” (Appetite for Destruction, 1987). Na sequência, a banda apresentou as recentes “The General” e “Perhaps”, de 2023, além de “Slither”, do Velvet Revolver, e “Live and Let Die”, de Paul McCartney & Wings.

Crédito: Guns N’ Roses
A parte intermediária do show trouxe “Hard Skool” (2021) e um cover do compositor Jimmy Webb, com “Wichita Lineman”. Logo depois, o telão exibiu uma imagem de Ozzy Osbourne, enquanto o grupo executava “Sabbath Bloody Sabbath” e “Never Say Die”, num tributo comovente ao “Príncipe das Trevas”.
O público seguiu em coro durante “Estranged”, “Yesterdays”, “Double Talkin’ Jive” e “Don’t Cry”. Em seguida, vieram “Absurd”, “Rocket Queen” e “Knockin’ on Heaven’s Door”, cover de Bob Dylan. O solo de Slash que introduziu “Sweet Child O’ Mine” transformou o Allianz Parque em um coro uníssono de mais de 49 mil vozes.
O encerramento foi digno da reputação do grupo. “Civil War”, “November Rain”, “This I Love”, “Human Being” (New York Dolls), “Nightrain” e “Paradise City” selaram a noite. O público permaneceu em pé, cantando até o último acorde.
Mesmo com mais de três horas de duração, o espetáculo manteve ritmo e intensidade do começo ao fim, o que, em tempos de shows cada vez mais curtos, é uma façanha. O Guns N’ Roses mostra que experiência e longevidade podem coexistir com energia e entrega, e que idade não é obstáculo para quem domina o ofício.
A leitura do conjunto deixa claro que a grande maioria das pessoas foi ao show esperando os clássicos, o que de fato aconteceu com generosidade, mas houve também o presente das canções que o Guns raramente ou nunca tocava ao vivo e que agora ganham lugar de honra na narrativa do concerto, uma escolha que ajuda a explicar por que, até o momento, São Paulo teve a setlist mais longa entre os últimos compromissos na América Latina com um total de 31 músicas e por que, mesmo em sua décima passagem pelo Brasil, sem qualquer lançamento comercialmente relevante desde 1991, a banda se esforça para oferecer uma apresentação digna de lenda do rock e se sai vitoriosa.
Resenha: Nathalia Alcoba

