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[Entrevista] Blackbriar: “É uma paixão nossa, então não nos importamos de gastar o tempo e o dinheiro para isso”

Em entrevista para o Tramamos, a vocalista Zora Cock e o baterista René Boxem, falam sobre a inspiração que os fizeram criar a banda, a dificuldades de viver de música, o apoio dos fãs e o novo álbum A Thousand Little Deaths

A banda Blackbriar surgiu na Holanda, em 2012, após seus criadores, Zora e René, assistirem a um show de uma famosa banda norte americana, algo que os influenciou diretamente, mas logo eles encontraram seu som e personalidade própria.

Após muito trabalho e uma consolidada parceria com o famoso produtor holandês Joost van den Broek, a banda está pronta para dar mais um passo em sua carreira: o lançamento do álbum A Thousand Little Deaths e a primeira turnê solo pela Europa.

Para falar sobre a trajetória da banda e o novo álbum, nossa jornalista Tamira Ferreira conversou com Zora e René, e você acompanha tudo abaixo:

Eu gostaria de perguntar sobre o começo da banda, de onde surgiu a vontade de criar o Blackbriar e qual eram as inspirações de vocês na época?

Zora: Na verdade, eu e Rene já estávamos trabalhando com música juntos, mas era um estilo completamente diferente, era um pop dark.

Fomos juntos ao show do Slash e tinha uma banda de abertura, o Halestorm, e a gente não os conhecia. Eles nos impressionaram, nós nos olhamos e dissemos: “Isso que a gente precisa fazer”.

Sim, a gente começou o Blackbriar por causa do Halestorm, você não irá identificar isso na nossa música, mas é por isso que a banda existe (risos).

Faz sentido com os primeiros singles.

Zora: Sim, com certeza! Então a gente percebeu que não era o nosso estilo, precisávamos achar a nossa própria identidade primeiro, mas eu acho que encontramos.

Uma coisa que eu percebi mesmo, vocês levaram um tempo para achar a identidade da banda. Tem esse conceito, no geral, mas muda conforme os lançamentos, especialmente com os EPs e os álbuns. Como foi o processo de achar esse estilo para a banda?

René: Quando a gente começou, é como você disse, completamente diferente, e a gente não se sentiu confortável com isso naquela época, não era o que queríamos fazer. Foi até a canção Until Eternity (2017) que a gente sentiu que tínhamos achado o nosso som e identidade.

A partir daquele momento, está sendo apenas uma progressão natural de composição, de como ser um músico e crescer como artistas.

Foi um processo natural para nós. Pessoalmente, eu não acho que a gente mudou muitas vezes, para ser honesto, desde o segundo EP. Ele foi o primeiro trabalho que a gente fez com Joost van den Broek, nosso produtor. A partir daquele momento, a gente queria muito manter o que estávamos fazendo, então a gente não mudou muito.

É onde estamos hoje, tudo que você escuta que pode soar diferente, é um crescimento natural como ser humano, músico e compositor.

Zora: Foi no começo que soávamos bem diferente, eu até tentei fazer alguns drives e algo assim, mas não era para mim.

Quando ouvi que a banda era holandesa, eu pensei no caminho das bandas que surgem de lá, mas vocês seguem um estilo mais voltado para o gótico alemão. Como foi para vocês decidirem seguir esse caminho mais para o gótico e menos para o metal sinfônico, por exemplo?

Zora: Eu acho que vem do nosso interesse nesses tópicos mais sombrios, coisas voltadas para o folclore e histórias de bruxas. Então é algo que sempre esteve em mim, como a música que a gente fazia antes, que era um pop dark, já era um pouco sinistra em relação as letras.

René: Eu acho que não estamos, necessariamente, calçando os mesmos sapatos que as outras bandas de metal holandês.

A gente realmente achou que haveria um espaço para nós quando pensamos nas estéticas e nos temas que usamos. Obviamente, você pode dizer que o Within Temptation do começo, com o Mother Earth, coisas assim, era um pouco mais próximo do que estamos fazendo agora.

Porém somos mais sombrios e mais góticos, a gente tem esse ar vitoriano entre nós e isso é algo majoritariamente uma extensão de um personagem da Zora que você consegue ver nessa banda.

Zora: São nossos interesses.

René: Então é algo bem genuíno e vem naturalmente, é muito fácil seguir esse caminho por ser parte do nosso mundo e dos nossos interesses.

Zora: A gente não precisa criar um personagem.

Vocês têm essa temática de falar sobre contos de fadas, mas também parece algo muito pessoal, como algo que aconteceu com você. Como é esse processo de composição das letras?

Zora: Eu me inspiro nas minhas experiências pessoais, então eu tento colocar várias metáforas nas letras, para não deixar tão obvio que é sobre a minha vida.

Assim, as outras pessoas podem ter a sua própria interpretação ao ouvir as letras, o que eu acho muito importante.

Vocês irão lançar um novo álbum A Thousand Little Deaths. Estava vendo um minidocumentário hoje, que me ajudou a criar minhas perguntas, porque quando ouvi o álbum, eu senti que tinha algo de casa mal-assombrada na melodia. E no documentário vocês dizem de ir até essa mansão para compor. Como foi esse processo e experiência?

Zora: Foi muito legal! Foi a primeira vez que fizemos um acampamento para compor com todos da banda. Porque, normalmente, é apenas eu e o René para compor as canções, mas a gente quis tentar.

Para isso, voltamos para um lugar especial para nós, a casa que gravamos o videoclipe para Until Eternity. Passamos algumas noites ali.

Foi incrível! Com toda a decoração antiga.

O que acabou surgindo foi a canção The Hermit and the Lover, foi nela que mais trabalhamos lá.

Tivemos muitas memórias boas.

René: Sobre o processo de composição, foi algo que a gente mudou um pouco para esse álbum, mais para essa canção, e algumas outras partes de diversas canções.

A gente já havia trabalhado nas outras canções, mas The Hermit and the Lover foi completamente composta com a banda inteira junta.

Foi a primeira vez que fizemos isso, mas de resto não mudamos muito quando se fala no processo de composição, porque achamos que estamos em um bom lugar nesse momento e gostamos do que estamos fazendo.

Estamos buscando novas inspirações e novos temas, mas não sentimos a necessidade de mudar a música ou seguir em diferentes direções de gênero e coisas assim. A gente quer que os fãs tenham uma certa expectativa sobre nós e esperamos que a gente possa entregar isso.

Esse álbum é mais pesado que os anteriores. Existe alguma conexão em ter os outros membros ou é algo relacionado ao conceito do álbum?

Zora: Todas as canções foram escritas separadamente, mas ao escrevê-las, algumas das canções começaram a ter alguma conexão para mim. Mas não é, realmente, um álbum conceitual.

Eu concordo que é mais pesado, especialmente se você o comparar com A Dark Euphony, que era mais iluminado e romântico. 

René: Foi algo intencional, porque quando começamos a escrever o novo álbum, e foi há muito tempo, dois anos talvez, a gente sabia que estava sentindo falta de algo ao vivo, porque a gente anda tocando muitos shows e vimos que poderíamos tentar integrar alguns elementos ao vivo na música.

Não é um álbum ao vivo ou todas as músicas vão funcionar perfeitamente ao vivo, mas, pela primeira vez, a gente focou nessa ideia de ter que tocar ao vivo.

Antes disso, os outros álbuns e EPs, nunca pensamos em como seria tocar as músicas ao vivo. A gente só queria tocar uma música legal e boa que a gente gostasse. Só depois iríamos ver se funcionava ao vivo.

Mudamos um pouco nesse sentido na hora de compor e focamos em alguns detalhes de cada instrumentos, acho que é por isso que soa mais pesado, porque colocamos mais esforço nas singularidades das canções.

Eu também pensei nisso, que as músicas devem soar muito bem ao vivo.

René: Esperamos que sim, a gente não sabe porque não tocamos a maioria delas ao vivo, a gente tocou duas canções ao vivo.

Zora: Sim, os singles. Teremos que esperar mais para sairmos em turnê.

René: E tocaremos o álbum inteiro.

Quando vocês tocam os singles, como vocês veem a recepção dos fãs?

René: A gente tocou apenas em casa de shows, foram três, e muito pertos do lançamento dos singles.

Zora: A gente também tentou Harpy, mas não tinha sido lançado ainda, então ninguém conhecia a música, foi a primeira vez que fizemos isso, foi muito assustador.

René: Foi estranho.

As pessoas não a conheciam, então não importou se a gente errou.

Tocar para os fãs, que realmente estavam ali para nos ver, ao invés de um festival, fez isso ser um pouco mais fácil porque eles estavam animados, independente do que estávamos tocando. Não importa qual canção escolhemos, eles ficarão felizes. Porém, tocar uma música que eles nunca ouviram, o local inteiro estava em silêncio.

Zora: Sim, porque eles estavam ouvindo.

René: Sim, e isso é tão estranho. Eu não sei se vamos fazer isso de novo porque é muito diferente. Como artista, quando você está no palco, e está completamente silencioso, é esquisito.

Zora: A gente teve um aplauso positivo (risos).

A gente começou a falar sobre shows, vocês anunciaram a turnê europeia. Vocês têm algo preparado para essas apresentações? Eu também queria saber sobre o lado visual da banda. Como é a criação de tudo isso para vocês?

Zora: A gente tenta trazer esse lado cinematográfico e teatral para o palco com essa turnê. Estamos trabalhando muito para conseguir isso.

A gente não conseguiu fazer ainda muita coisa dessa parte.

René: Basicamente a gente não podia porque ou os locais de show são pequenos demais, ainda estamos crescendo, ou somos abertura de uma banda grande e não temos espaço no palco para fazer isso.

Das duas formas você não têm espaço (risos). Porém, pela primeira vez, faremos a nossa primeira turnê como banda principal pela Europa.

Teremos locais menores e maiores, mas o que estamos tentando fazer é trazer a nossa estética para os shows. E se o local permitir, se tivermos espaço no palco, iremos levar o máximo que pudermos para trazer esse álbum à vida.

Zora: Porque todo esse visual que temos em nossos videoclipes é nossa segunda paixão, já que fazemos tudo sozinhos.

É algo muito importante para nós e queremos trazer isso para o palco.

A banda teve um crescimento progressivo e vocês acabam investindo cada vez mais, seja na música ou no visual. Eu vi que vocês lançaram o primeiro álbum depois de assinar com uma gravadora. Como foi esse crescimento da banda?

René: Na verdade, o nosso primeiro álbum foi lançado independentemente, não tinha gravadora, que foi The Cause of Shipwreck.

O primeiro lançamento que tivemos com a Nuclear Blast foi Dark Euphony, que é nosso álbum anterior.

Mas somos uma banda que fazemos tudo sozinhos e estamos muito orgulhosos do que atingimos. Agora temos uma boa parceria com a gravadora, eles nos apoiam completamente e somos livres para fazer o que precisarmos. Eles nos ajudam a crescer como artista e como banda.

Zora: Está tendo muitos investimentos do nosso lado desde o começo.

René: Você precisa fazer tudo que consegue, até mesmo morar com seus pais por mais tempo só para bancar fazer alguns shows naquele ano, ou gravar um álbum.

A gente costumava economizar todo o dinheiro que tínhamos, até hoje em dia, a gente faz financiamento coletivo (a famosa vaquinha), o que é uma forma muito importante para nós de nos unirmos aos fãs. Ainda fazemos isso, mesmo com a Nuclear Blast, a gente faz essa campanha de pré-venda, que é uma forma de arrecadação,  oferecendo a chance de ter o seu nome no encarte e estar conectado com a nossa música para sempre.

Era extremamente importante para nós que a gravadora autorizasse isso e foi o que eles fizeram.

Para nós não mudou muita coisa em relação a isso e ainda estamos em controle de fazer o que amamos.

É bem interessante ver esse outro lado porque é difícil para uma banda viver 100% de música. E ver como vocês fazem isso para conseguir, de uma forma tão honesta.

Zora: E eu tenho os fãs que investem no Patreon, o que é incrível, porque eles são a razão que eu possa investir tanto na banda. Antes todos tínhamos outros empregos, mas por causa deles, eu pude sair do meu emprego e usar todo o meu tempo com o Blackbriar.

René: Eu acho que somos muito abençoados com os nossos fãs desde o começo.

Eu me lembro fazendo a primeira campanha de arrecadação e era de U$2000, ou algo assim, e ficamos admirados de ver que tinham pessoas interessadas em nossa música. Naquela época era muito dinheiro, então você vai crescendo e o orçamento também. Tudo é mais caro hoje em dia.

Mas, por sorte, toda a nossa base de fãs fiéis também está crescendo.

É bem difícil conseguir bancar tudo isso e a gente ainda coloca muito do nosso dinheiro. Por exemplo, se quisermos fazer videoclipes, ou algo assim, a gente basicamente paga por tudo nós mesmos. Mas é do jeito que quisermos fazer.

Zora: É porque queríamos fazer mais vídeos que apenas dois.

René: É uma paixão nossa, então não nos importamos de gastar o tempo e o dinheiro para isso.

Vocês estão fazendo várias entrevistas com a mídia sulamericana, vocês conhecem algo sobre o Brasil, como é a cena metal por aqui?

René: A gente sabe que a cena metal é muito boa, apenas não tivemos uma oportunidade ainda, mas é uma das primeiras coisas da nossa lista. Queremos muito ir para aí.

Seria um sonho realizado se conseguirmos ir para a América do Sul.

Zora: Desde o começo da banda, a gente sempre quis tocar aí.

René: A gente precisa ir para aí! Mas estamos esperando pela hora certa e a oportunidade, então podemos te prometer que vamos tocar aí.

É um sonho nosso desde que começamos.

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