Caliban reafirma reinado e mostra que continua um dos gigantes do metalcore
A Fabrique Club recebeu uma noite intensa de hardcore e metalcore neste fim de semana. O evento foi marcado por energia crescente, sets pesados e um público que, embora tenha começado tímido, terminou completamente entregue.
Broad And Sharp, Fim do Silêncio e Caliban passaram pelo palco em apresentações que mostraram diferentes gerações do gênero, todas igualmente afiadas. A produção do show ficou a cargo da produtora Liberation.
Resenha por Guilmer Costa
Fotos por Thammy Sartori
Broad And Sharp abre a noite mostrando a força do metal nacional
Primeira banda da noite, o Broad And Sharp assumiu o palco diante de um público ainda pequeno, mas desde os primeiros acordes deixou claro que isso não limitaria a performance. Formado em 2012 e agora com o novo vocalista Roger Guinalia e o guitarrista Emerson Pereira, o grupo apresentou um set que mesclou faixas da carreira com versões renovadas e muita entrega.
Músicas como “Nossa Causa é Morrer”, “Sobre Meninos e Lobos” e “Abuso” levantaram a plateia aos poucos, com a banda sustentando o peso característico que sempre marcou sua trajetória. O momento mais simbólico ficou por conta do cover de “Reflections”, do For Today. Antes de tocar a faixa, o vocalista destacou a importância da banda norte-americana para sua formação e relembrou a honra que foi abrir para eles em 2016, no mesmo local.
Mesmo com a casa ainda esvaziada, o Broad And Sharp encerrou o show sob aplausos e com a sensação de recomeço.
Fim do Silêncio retorna ao palco com casa cheia e público fervoroso
Com a casa agora muito mais cheia, e fãs que literalmente tomaram o microfone do vocalista Leandro para cantar, o Fim do Silêncio mostrou porque segue como um dos nomes mais tradicionais do hardcore/metal brasileiro. A banda, ativa desde 1999, vive um novo momento com o lançamento do EP Corrosão, que chega no dia 10 de dezembro pelo selo Repetente Records.
O show foi explosivo e guiado por faixas que traduzem perfeitamente o momento atual do grupo. O single “Plástico, Glamour e Corrosão” teve grande destaque: feroz, crítico e direto. Ele reflete os sintomas de uma sociedade onde a aparência vale mais que a substância. Com Leandro Carbonato e Felipe Flip nos vocais, a banda alternou agressividade e densidade emocional, sustentadas pelas guitarras de Rodrigo Fu e Paulinho, o baixo de Carlos Abreu e a bateria precisa de Daniel Medeiros.
No set, ainda marcaram presença faixas clássicas da trajetória, como “Real Vida Suja”, “Marreta”, “De Olhos Fechados” e “Punhos Cerrados”, além da nova “Estado Laico”, recebida com entusiasmo. Para quem não via a banda ao vivo desde 2010, como eu, ficou evidente que o Fim do Silêncio permanece mais vivo, ácido e coerente do que nunca.
Caliban encerra a noite com mosh, nostalgia e entrega absoluta
Quando as luzes baixaram para a entrada do Caliban, era evidente que a Fabrique Club estava no momento de maior expectativa da noite. O público, agora totalmente tomado por fãs de todas as idades, mas especialmente a geração que acompanhou o boom do metalcore nos anos 2000, formou um mar compacto à frente do palco. A primeira nota foi suficiente para transformar o ambiente em uma mistura de nostalgia, adrenalina e puro caos controlado.
Mesmo recuperando-se de uma cirurgia no joelho, o vocalista Andy Dörner mostrou que carisma não depende de mobilidade. Falante, divertido e extremamente comunicativo, ele comandou a plateia com facilidade, fazendo piadas, chamando os fãs para cantar refrões e pedindo energia “mesmo que todos ali fossem trabalhar na segunda-feira cedo”. Entre músicas, Andy chegou a comentar que estava impressionado com a resposta do público e, ao mesmo tempo, envergonhado por terem demorado tanto para voltar ao Brasil.
Um dos momentos mais marcantes da interação aconteceu quando Andy perguntou quantos ali estiveram no show de 2009 no Inferno Club, e a reação calorosa entregou uma plateia marcada por memórias de duas décadas de trajetória. Para muitos, foi como reencontrar uma parte da própria história.
No palco, o guitarrista Marc Görtz, usando uma camiseta do Brasil, era pura energia, guiando as passagens mais pesadas e entortando riffs que definiram o metalcore europeu nos anos 2000. A banda inteira parecia renovada: precisa, agressiva e ao mesmo tempo confortável, como quem encontrou novamente o próprio território.
O setlist, impecavelmente equilibrado, navegou entre a fase atual e o período clássico. Do disco novo, Back From Hell, vieram versões avassaladoras de “Guilt Trip”, “I Was a Happy Kid Once”, “Paralyzed”, “Dear Suffering” e “Back From Hell”, que mostraram como o Caliban continua relevante, agressivo e emocionalmente denso. As músicas mais recentes foram recebidas com entusiasmo genuíno, com o público já familiarizado com os refrões e breakdowns.
Mas foram nos clássicos que a Fabrique Club realmente tremeu. “Davy Jones” e “I Will Never Let You Down” abriram rodas intensas, enquanto “The Beloved and the Hatred” (minha favorita) reacendeu o espírito do metalcore dos anos 2000. “VirUS” e “Insomnia” foram cantadas de ponta a ponta, com vários momentos em que o microfone foi estendido ao público.
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O ápice da noite veio em “Memorial”. Antes da música, Andy abriu espaço no salão e anunciou: “Let’s do a big one… a real Brazilian wall of death!”. Em segundos, a plateia se dividiu em duas massas prontas para colidir. A explosão do refrão fez a Fabrique literalmente estremecer, um dos maiores walls of death que a casa viu recentemente.
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No bis, a banda retornou para “Devil’s Night” e “Nothing Is Forever”, selando um final catártico. Entre as músicas, um momento especial: um fã chamado Gabriel foi chamado ao palco para receber parabéns de toda a banda e, claro, de todo o público em coro.
Quando o último acorde ecoou, ficou claro que não era apenas mais um show. Para muitos, foi o reencontro com uma banda que marcou gerações, com a lembrança de um tempo em que o metalcore dominava pistas e mentes. E para o Caliban, uma confirmação: mesmo após tantos anos, sua força ao vivo continua intacta, técnica, emocional e explosiva.
Encerrando a noite, o sentimento geral era o mesmo: o Caliban fechou 2025 não só com chave de ouro, mas com a certeza de que o metalcore ainda pulsa forte no coração do público brasileiro. Uma celebração coletiva que uniu passado e presente, e deixou o futuro aberto para mais retornos.




















